No
tempo certo
Fonte: Folha de S.Paulo, Caderno Equilíbrio, 29/3/07
Especialistas discutem teoria que inclui relacionamento com o pai na lista
de fatores que podem influenciar a idade com que meninas têm a primeira
menstruação; clima, alimentação e herança
genética têm efeitos sobre a chegada da puberdade
Elas já
se preocupam com moda, entendem de maquiagem e de dietas e se consideram adolescentes
cada vez mais cedo. Os pais também se surpreendem com o fato de sua
filhinha, muito antes do que gostariam, começar a exibir os sinais
da puberdade: o surgimento de seios, de alguns pêlos e -a cartada final-
a menarca, nome técnico da primeira menstruação.
A impressão é que elas estão crescendo rápido
demais e os motivos associados à chegada da puberdade têm se
tornado cada vez mais abrangentes. Associados à genética, ao
clima e à alimentação, eles também passaram a
incluir os relacionamentos familiares. Em especial, a relação
com o pai.
Estudos divulgados ao longo dos últimos anos têm analisado de
que forma a ausência do pai pode fazer com que a filha amadureça
sexualmente mais cedo -uma idéia inquietante numa época em que
as separações são cada vez mais comuns e que ainda não
encontra consenso entre especialistas.
Um dos pioneiros nessa avaliação é o sociólogo
Jay Belsky, diretor do instituto para o estudo de crianças, famílias
e questões sociais, do Birbeck College, da University of London. Em
sua teoria da aceleração psicossocial, Belsky defende que as
meninas que não convivem com o pai ou que enfrentam muito estresse
familiar amadurecem mais cedo.
"Há evidências de que a ausência paterna, independentemente
do estresse, afeta [a aceleração da menarca], assim como relacionamentos
familiares estressantes, mesmo que eles sejam vividos na companhia dos pais
biológicos", disse Belsky à Folha.
A ginecologista Albertina Duarte, professora do Hospital das Clínicas
e coordenadora do programa de saúde do adolescente da Secretaria de
Estado da Saúde de São Paulo, concorda com Belsky. Em 1997,
enquanto desenvolvia sua tese de mestrado, ela encontrou, nas meninas que
acompanhava, essa associação entre a chegada da menarca e o
relacionamento com os pais.
"Vi que, tanto nos casos de puberdade precoce como nos de puberdade tardia,
havia uma ligação com problemas de relacionamento. A separação
dos pais, quando ocorria de forma abrupta, era um fator importante. Quando
a menina menstruava, eu perguntava se havia acontecido algo importante na
vida dela três anos antes. Muitas diziam que os pais haviam se separado
nessa época", conta Duarte.
O psiquiatra Joel Rennó Jr., coordenador do Pró-Mulher (Projeto
de Atenção à Saúde Mental da Mulher, do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP), também já
observou relações parecidas num projeto social desenvolvido
pelo hospital Albert Einstein em Paraisópolis, na periferia de São
Paulo.
"A gente observa que as meninas de origem mais pobre, que são
mais desassistidas, têm um pai ausente etc. têm a idade da menarca
mais precoce. Mas são várias as condições que
se somam em cada caso, e a gente fica sem saber qual é o fator predominante.
Que o emocional tem uma relação nesse amadurecimento, isso está
bem estabelecido. Mas não podemos ser reducionistas. É difícil
falar de uma origem única, o ser humano é muito complexo",
afirma.
Hormônios
O estresse pode alterar a secreção de alguns hormônios
sexuais. De acordo com a endocrinologista Ana Claudia Latronico, professora
da Faculdade de Medicina da USP, a "chave hormonal" que determina
o desenvolvimento sexual é o hormônio liberador das gonadotrofinas,
que fica no sistema nervoso central. "Toda situação envolvendo
um estresse grande, mudanças, tem uma ação no sistema
nervoso central", afirma.
O estresse crônico também leva à manutenção
de níveis mais elevados de cortisol (conhecido justamente como o hormônio
do estresse), segundo Rennó Jr. Essa reação pode ser
desencadeada tanto pela violência quanto por estímulos eróticos
precoces ou problemas financeiros da família.
"Isso, de alguma forma, interfere no amadurecimento das gônadas",
diz. As gônadas são as glândulas reprodutivas: os testículos,
nos homens, e os ovários, nas mulheres.
Isso ajudaria a explicar por que a ausência do pai poderia levar a um
amadurecimento sexual precoce em algumas meninas. Mas há pesquisadores
que vão além quando o assunto é o papel dos hormônios.
Em um trabalho publicado no ano passado no "American Journal of Human
Biology", pesquisadores afirmaram que feromônios liberados pelos
pais poderiam atrasar a menarca da filha. Segundo o estudo, realizado na Pennsylvania
State University, garotas que vivem longe do pai tendem a ter a menarca três
meses antes das que vivem com o pai.
Esse tipo de resposta a estímulos químicos bloqueadores é
conhecido em modelos animais. "Quando você tira os familiares adultos
de uma ninhada de ratos e coloca outros ratos, os filhotes tendem a amadurecer
mais precocemente", afirma Rennó Jr., que contesta, porém,
a simples transposição desse tipo de resultado para humanos.
"São tantas as variáveis dos pontos de vista psicológico,
social, econômico e biológico que afirmar que esse modelo pode
ser transposto para humanos é complicado", afirma.
Para Latronico, a analogia entre animais e seres humanos faz pouco sentido
nesse caso. "Dentro de um contexto familiar, para ter essa influência
dos hormônios masculinos sobre os filhos, seria necessário um
contato muito maior do que normalmente a gente tem com os pais. Essa teoria
é mais baseada em modelos animais. Em seres humanos, não tem
nenhuma comprovação científica mais sólida."
Peso
Outro fator hormonal envolvido no desenvolvimento sexual é o nível
de estrogênio, cuja formação está relacionada à
presença de gordura no organismo. Isso faz com que a obesidade seja
um dos fatores que mais influenciam a chegada da puberdade.
"As meninas que têm mais tecido adiposo aos sete ou oito anos de
idade menstruam primeiro", explica o hebiatra Paulo César Pinho
Ribeiro, presidente do departamento de adolescência da Sociedade Brasileira
de Pediatria.
A relação entre peso e menarca é valorizada mesmo por
Jay Belsky. "Não temos nenhuma análise sobre isso, mas
acredito que o peso seja mais importante [que a ausência ou presença
do pai]", afirma.
Outros dois aspectos já constatados e geralmente aceitos são
a herança genética e o efeito do clima sobre o desenvolvimento
sexual: crianças de países quentes chegam à puberdade
antes de crianças de países frios. Ainda não se sabe,
porém, de que forma a temperatura ambiente promove essa mudança
no organismo.
Quanto ao papel dos genes, Latronico afirma que, em gêmeas, por exemplo,
a idade da primeira menstruação geralmente é a mesma.
Além disso, são comuns também os casos em que as filhas
têm a menarca na mesma idade em que suas mães tiveram.
Latronico pesquisa um grupo de jovens com puberdade precoce sob o enfoque
genético, com análise de DNA. "Provavelmente o peso dos
genes é grande nos casos de puberdade precoce familial, que correspondem
a 12% do total", diz a endocrinologista, referindo-se a famílias
em que mais de uma pessoa enfrentou o problema.
Precoce
A puberdade precoce ocorre quando os primeiros sinais do desenvolvimento sexual,
como pêlos, aparecem antes dos oito anos em meninas ou antes dos nove
anos em meninos. Entre eles, a maturação sexual costuma começar
mais tarde -dois anos depois das meninas.
Em garotos, a causa mais comum de puberdade precoce é tumor cerebral.
Já as meninas, que representam 90% dos casos, podem ter o problema
devido a diversos fatores.
Embora não existam dados sobre esse problema no Brasil, estudos apresentados
num congresso recente no Chile mostram que lá o número de casos
de puberdade precoce tem crescido. Uma das hipóteses, segundo Latronico,
é que a alimentação influencie diretamente essa mudança.
O crescimento puberal gera uma maturação óssea precoce,
que não acompanha a idade cronológica. Assim, a menina de oito
anos pode ter uma maturação óssea de dez anos.
A principal conseqüência disso é a baixa estatura, já
que, após a menarca, o crescimento ocorre mais lentamente.
O processo pode ser bloqueado por meio de medicação. Foi o que
aconteceu com Isabella Scherer, 11. Devido à puberdade precoce, ela
precisou tomar remédios que atrasassem seu desenvolvimento. A medicação
foi suspensa no início deste ano, e agora ela aguarda a hora de "virar
mocinha". "Vai ser ruim porque tenho natação todos
os dias e não quero ter que faltar", afirma.
Já Daniela Cabaritti, 12, está ansiosa para menstruar, mas ainda
deve esperar um pouco pelo momento. Desde os nove anos, ela faz um tratamento
para atrasar a menarca. Com 1,46 m, deve manter os remédios até
alcançar 1,60 m. Beatriz Zaupa, 13, conseguiu ganhar cinco centímetros
antes de menstruar, por meio de um tratamento endocrinológico.
Mas Latronico avisa que o tratamento só deve ser feito até a
criança ter uma maturação óssea de 13 anos. Mesmo
que ela tenha apenas nove anos ao chegar a esse estágio, o tratamento
deve ser interrompido. "Se continuar a bloquear a menstruação,
a fase do estirão será prejudicada", alerta.
Vergonha
e presentes
Precoce ou não, a chegada da menarca costuma despertar dúvidas
e preocupações em todas as meninas e ser acompanhada por uma
série de mitos, sendo um dos principais o medo de "parar de crescer"
(ver quadro ao lado).
Victória Corban, 12, que menstruou no ano passado ("no Dia das
Crianças", ressalta), ri ao falar de sua primeira reação.
"Mostrei para a minha mãe e ela disse que eu tinha menstruado.
Fiquei assustada e falei: "Ferrou pro meu lado". Tive vergonha de
contar para o meu pai, aí liguei para minha madrasta", lembra.
Isabela Laranja, 12, não só teve que telefonar para toda a família
como ganhou presentes de parentes: um colar, um "kit menstruação"
e dinheiro para comprar roupas novas.
"Eu não queria ter menstruado, mas fui no ginecologista e fiquei
aliviada, porque ele disse que veio tudo na hora certa."
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Agradecimentos: Academia Gustavo Borges -Natação & Bem-Estar
e colégio Augusto Laranja