Ação e Reação

Por: Claudia Siqueira*, assessora pedagógica do Colégio Augusto Laranja.

Fonte: Revista Circuito, agosto/2007.


Será que ajudamos nossos filhos e alunos a compreender o conteúdo de “ação e reação”?

Há tempos tenho o desejo de escrever sobre esta temática. Penso muito sobre o quanto é importante proporcionarmos situações que ajudem nossos meninos e meninas a ter vivências reais sobre a teoria da ação e reação, como pesquisar situações cotidianas em nossas casas, na escola, com os amigos, enfim, na vida. Muitas vezes perdemos a oportunidade de ensinar que é necessário considerar as reações, que essas são conseqüências de nossas escolhas. Se nos focássemos em fazer esta pequena “lição de casa” e tivéssemos um olhar mais criterioso em relação ao que julgamos, muitas vezes, secundário, choraríamos menos, reclamaríamos menos e viveríamos melhor.

A criança pequena precisa que nós, adultos, sejamos coerentes com nossas posturas, começando com os famosos “sim” (que efetivamente significam “sim”, e não “talvez”) e os “não” (que realmente significam “não”, se colocados de forma coerente e pertinente).

Muitos de nós trabalhamos mais com a emoção do que com a razão; assim, ponderar que, independentemente de nosso estado de espírito, nossos filhos precisam de respostas coerentes, é um bom exercício.
Meninos e meninas testam a elasticidade do “muro” (do nosso “muro”). Aliás, um muro não pode ter elasticidade.

Um exemplo clássico: o filho quer alguma coisa, pede primeiro para o pai – e normalmente escolhe uma hora em que este esteja no trânsito, lendo o jornal, não esteja realmente “ouvindo” o pedido. O pai autoriza ou diz: “Fale com a sua mãe. Por mim tudo bem”. O inverso também é uma realidade. Um dos dois é sempre mais acessível – o que, com certeza, não é a situação ideal. Pai e mãe têm de mostrar aos seus filhos o quanto são parceiros nesse educar: conversam, decidem juntos e não disputam o amor de seus filhos – compartilham! O tempo vai passando, eles vão crescendo e nós perdemos as oportunidades de ajudá-los a exercitar a ação e reação.

Um menino, quando põe uma “capa” e pula do sofá, acredita de fato que pode voar. Sabemos que ele está no mundo simbólico, da fantasia, mas precisamos sinalizar que pode cair e se machucar...

Quando crescem um pouco mais, principalmente os meninos, muitos pais consideram normal ensiná-los a dirigir (talvez esse fato esteja ligado à afirmação da masculinidade – só estou tentando achar um motivo para um ato tão descabido). Dados nos apontam altos índices de meninos que morrem entre 14 e 23 anos por conduzir veículos em alta velocidade nos condomínios, nas ruas, estradas... Os pais, sem compreender a lei da ação e reação, muitas vezes escolhem “matar” seus filhos, quando pensam que estão “dando conforto”.

Há pouco tempo, um pai, ao escolher deixar seu filho na cadeia, virou notícia e motivo de debate. Lendo um pouco sobre a trajetória de seu filho, é possível perceber que sua decisão estava mais relacionada a um ato de desespero do que ao ato de educar, já que este pai escolheu tarde (antes tarde do que nunca!) exercitar com o seu filho o entendimento de ação e reação.

As escolas não colaboram muito para inserir esta temática na rotina de seus alunos. Algumas delas – na verdade, muitas – ainda trabalham com a lógica da boa postura/recompensa, postura inadequada/castigo. Não educam nem ajudam a refletir, já que muitas vezes tratam de punir por punir, e não de aplicar uma sanção por reciprocidade. E, quando o fazem de forma coerente, são questionadas por pais que não aceitam que seus filhos sejam educados, no sentido mais amplo da palavra. Um exemplo de postura de castigo: “brigou com o colega em classe, fica sem recreio”. O mesmo exemplo com postura de sanção: “brigou com o colega, vai ajudar a professora a administrar outras situações de conflito entre os membros da turma”. A criança que é castigada modifica sua atitude por medo de ser punida, enquanto aquela que recebe uma sanção aprende que toda ação tem uma reação.
Enfim, não podemos mais deixar nossos filhos e alunos à revelia. Eles não aprendem por osmose, mas a partir de nossa inferência, de nossos exemplos, atitudes, posicionamentos e ações.

* Claudia Siqueira atua há 20 anos na área de Educação. Historiadora, pedagoga, pós-graduada em "Aperfeiçoamento de docentes de Educação Infantil e Ensino" (PUC), pós-graduada em "Pedagogia de Projetos e Tecnologias Educacionais" (PUC). Magistério com especialização em Educação Infantil. Apresentou projetos de educação no Japão, EUA, América Latina e Europa.

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